Friday, November 25, 2016

NO CINEMA: Arrival (A Chegada)

Nota: 10 / 10

Durante toda minha vida de cinéfilo, eu acreditei, e ainda acredito, que um filme, de qualquer gênero, para ser considerado próximo de perfeito, tem que causar uma chama interior que te mude de alguma forma. Em outras palavras, você assiste o filme, e sai da sala de cinema com outra percepção sobre a vida e sobre o modo como você enxerga o mundo.

Arrival é um desses casos raros de hoje em dia. A primeira vista ele só parece ser outro candidato a próximo 2001: A Space Odyssey, e claro, não podemos dizer que não existem referências para afirmar isso, mas conforme o filme passa, você se dá conta de que há outra coisa em jogo. Seu pano de fundo de ficção-científica serve para nos trazer questionamentos humanos muito pungentes e imediatos, considerando os dias em que vivemos.


A trama do filme começa nos apresentando a personagem de Amy Adams, a Dra Louise Banks, uma linguista. Para resumir o prólogo do filme, ela teve uma filha, se separou do marido, a filha dela atingiu uma certa idade, e ficou doente, vindo a falecer.

Corta para outro momento em que descobrimos que não estamos sozinhos no universo, e que uma nave alienígena acabou de pousar na Terra. É aí que a doutora em línguas é requisitada pelo governo americano para traduzir as mensagens dos ETs, para que possamos saber o porquê deles terem nos visitado. Só que o modo como se comunicam é bizarro, e diferente de tudo.

Conforme a trama passa, uma relação entre o passado e o futuro da doutora vai se estabelecendo com a visita dos aliens, e as histórias se interconectam. Quando ela conhece o personagem de Jeremy Renner, Ian Donnely, os dois auxiliam o coronel Weber (Forest Whitaker) e sua equipe com a comunicação com os aliens, mas o que era para ser simplesmente uma missão acaba se tornando algo muito maior.

Uma pequena análise filosófica, nos traz a luz o seguinte: a doutora Louise é uma pesquisadora de línguas, sabendo se comunicar em diversos idiomas. Ela tenta entender as regras de comunicação dos visitantes, mas este desafio se mostrou muito além das próprias habilidades da doutora, que já são sensacionais.

Essa é uma analogia relativamente simples: os aliens se comunicam de uma foma verbal bem diferente da forma com que escrevem. O que transmitem, nada tem a ver com a representação da fala, mas sim dos sentimentos, diferente de como fazemos.

Por causa disso, a doutora acaba por entender porque houve a separação, porque sua filha morreu, e outras coisas que aconteceram em sua vida. Os alienígenas, comicamente apelidados de Abbott e Costello estão aqui para nos alertarem sobre a nossa falha de comunicação.

Em outras palavras, vivemos em um mundo com diversas formas de comunicação, línguas diferentes, sentidos diferentes, mas mesmo assim, ainda falhamos miseravelmente em nos comunicar, o que acaba ocasionando disputas, guerras e confusões pelo mundo todo. A conclusão do filme ilustra muito bem esta falha, uma vez que durante a projeção nós vemos, em uma manobra muito semelhante a 2001: A Space Odyssey, a doutora tocar na estrutura da nave espacial oval, como se ela fosse o monolito do filme de Kubrick, tentando compreender aquilo, aquele enigma. Também temos a mesma nave espacial tombando de sua posição vertical para horizontal, o que sinaliza uma provável quebra de código, ou seja, o sentido daquela visita é descoberto pela doutora e tudo fica às claras.

Podemos ver a forma com que o coronel americano e o chinês entenderam a mensagem decodificada dos aliens: "oferecer arma", no sentido de que queriam guerra. É curioso também vermos países como Venezuela, Rússia ou a própria China, países em constantes conflitos, e ao mesmo tempo outros mais estáveis, como EUA e Austrália, todos eles, independente de suas ideologias e visões de mundo, captando a mensagem dos visitantes de forma totalmente distorcida. Por outro lado, Louise mergulha na forma de comunicação deles, e passa a servir como a apaziguadora, pois somente ela conseguiu entrar em tão perfeita sintonia com os visitantes de outro planeta para entender o real sentido de tudo aquilo, o que realmente significava a tal da "arma" da qual os aliens falavam tanto.

Este filme lhe deixará reflexivo ao final. Como eu disse anteriormente, ele nos traz essa ideia de que a comunicação não é somente verbal, ela se dá em diversos níveis. Sabemos onde devemos ir quando vemos uma seta; sabemos quando devemos parar, seguir ou tomar cuidado, quando observamos o semáforo; podemos nos comunicar através de sinais, caso alguém não consiga nos ouvir; temos código morse, entre diversas outras formas de comunicação não-verbal que muitas vezes acabam até substituindo a fala. Às vezes, um simples olhar ou gesto já diz tudo o que queremos passar; muito como o próprio cinema, que é uma linguagem primeiramente visual, que se comunica através das imagens.

Este filme talvez seja uma das melhores experiências que tive este ano, certamente estará entre as 5 primeiras melhores, quando eu começar a analisar o que houve de realmente bom ou significativo, e por isso, eu recomendo ele para você de uma forma especial. O diretor Denis Villeneuve, que dirigiu outros filmes aclamados, como Prisoners (Os Suspeitos), de 2013 e Sicario, de 2015 continua aqui sua irrepreensível carreira cinematográfica com mais esta gema. É um filme com um pano de fundo bem simples, mas complexo e cheio de sentido.

Arrival (2016)
Título em português BR: A Chegada

Direção: Denis Villeneuve
Produção: Eric Heisserer, Michael Jackman, Dan Levine, Shawn Levy, David Linde, Aaron Ryder
Roteiro: Eric Heisserer (baseado na história curta Story of Your Life, de Ted Chiang)
Trilha sonora: Jóhann Jóhannsson

Estrelando: Amy Adams, Jeremy Renner, Michael Stuhlbarg, Forest Whitaker, Tzi Ma, Mark O'Brien, Abigail Pniowsky, Jadyn Malone, Julia Scarlett Dan, Carmela Nossa Guizzo

Trailer:

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